Havia acordado há alguns segundos e me encontrava no quarto. Era o meu quarto, não havia dúvidas sobre isto - tinha as mesmas dimensões, a janela solitária dava para a rua ensolarada de sempre e, além do mais, reconhecia os objetos circundantes como de meu uso pessoal. Também os odores eram os mesmos, e os sons. Entretanto, tinha em mim a nítida impressão de estar em um local bastante estranho.
Desconhecia aquela sensação que me tomara de assalto. Sentia-me alheio àquele espaço embora tivesse vivido entre seus limites – e eu tinha consciência disto – durante boa parte de minha vida. Uma vez rompida, a realidade invadia meus sentidos, tentando inutilmente varrer aquela sensação do meu peito; mostrando-me os objetos, as fotografias e
tudo mais que forjava uma história minha, uma prova irrefutável de que vivi no passado.Tudo, no quarto e fora dele, remetia a um suposto “EU”, uma identidade que pela primeira vez era questionada na sua mais entranhada legitimidade.
Sabia o que isso representava, tanto que, se pudesse, voltaria a dormir na mesma hora. Entretanto, o desconforto daquela situação atava-me ao mundo como nunca nada pôde me atar. Desprezando-o eu o via crescer a meus olhos, até ficar imenso, onipresente. Poderia ignorá-lo? Ignorar a quem?
Positivamente não se ignora a quem não se conhece, e todo esforço que fazia neste sentido era inútil. Como era inútil também me opor a aquilo tudo: me era estranho o quarto que sempre dormi. Eu era um invasor dentro de meu próprio domínio. E isso fazia toda a diferença.
Levantei-me meio desperto – um improvável despertar sem sono, sem desfalecimento anterior, sem reconhecimento. Era como se o mundo existisse pela primeira e única vez. Peguei um pequeno maço de folhas em branco e uma caneta que havia depositado na noite anterior sobre a pequena escrivaninha em que dobrava a espinha durante noites intermináveis.
Alguns minutos debruçados sobre a sensação de me ter nas mãos a caneta, e o vento quente a soprar o ventilador de palhetas azuis sobreposta ao tom da madeira do armário de mesmo tom da escrivaninha em que me sentava pra ler ou pra escrever bastaram para me dar tamanho enjôo (continua)
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
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